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Das maravilhas da jornada

Lembro-me de quando criança ler poesias. Eu via aquelas palavras amontoadas e organizadas daquele jeito - e não entendia. São só palavras. Como alguém pode se emocionar com palavras? O que eu não estava vendo ali? Também as músicas. Eram notas; organizadas, mas apenas notas. Quando muito, descobria um acorde ou uma escala. Eu não escutava nada além de notas organizadas. Eu não entendi os quadros, ou quaisquer arte. O pôr-do-sol tampouco me dizia algo além de ser um círculo amarelo, uns tons de laranjas e alguns azuis no céu - ou melhor, no alto e no horizonte. Eram apenas coisas em uma certa ordem. De onde vinha esse modo de ordenar as coisas? Cada vez que ficava claro como se ordenava alguma coisa, apareciam novas coisas a se ordenar. Não era minha a escolha de procurar a ordem de alguma coisa: não havia vida fora desta procura. Eu poderia evitar procurar ordem na comida, ao menos por um tempo; mas não podia me esconder de palavras que afloravam em meu pensamento. Evitar a procura da ordem nas coisas é ainda procurar alguma ordem.

Nessa procura infindável por ordem, encontrei diversas coisas; também - diversas ordens. Deparei-me então com ordens desordenadas. Encontrei a desordem!: não como o fim de minha busca, mas como quem chega ao topo de uma montanha e vê uma cadeia de montanhas nevadas, desconhecendo a neve; como quem mergulha pela primeira vez no mar e, com os olhos submersos e bem abertos, enxerga um novo mundo. Frente à diversidade das coisas, que mais me parece infinita, encontrei algo que não era coisa, ou que era coisa diferente das outras coisas: encontrei a mim procurando coisa; em todas as coisas que procuro, estou eu lá, também. Na diversidade das coisas, sou, mais me parece, infinito

 
 
 

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